segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sobre História - Eric Hobsbawm


O próximo livro da lista traz Eric Hobsbawm com "Sobre História" (Cia. das Letras, 2000).

Um dos últimos trabalhos de um dos mais respeitados historiadores marxistas ainda vivo, este livro na verdade é uma coleção de ensaios publicados pelo autor, muitos dos quais ainda inéditos, onde Hobsbawm analisa o significado e os compromissos envolvidos na tarefa da escrita da história.

Com clareza e erudição, Hobsbawm, refletindo o papel do historiador, analisa problemas pertinentes para atualidade como a indefinição das identidades nacionais na Europa e o uso ideológico do discurso histórico naquela realidade.


O livro ainda analisa o legado de 150 anos do Manifesto Comunista, a herança de Marx aos historiadores, a revolução bolchevique, as relações entre história e economia e a noção de progresso no conhecimento histórico, entre outras questões.



A obra em capítulos:


Prefácio
Ponto de partida do historiador. Ponto do qual o historiador deve partir é a distinção fundamental entre fato comprovável e ficção. Aquilo que o historiador investiga é real. p. 8.

Cap.1. Dentro e fora da História

América Latina
A história dos países atrasados nos séculos 19 e 20 é a história da tentativa de alcançar o mundo mais avançado por meio de sua imitação (ver Borón). p. 15.

História como local para busca de um passado de glória
O passado é um elemento essencial, talvez o elemento essencial nas ideologias. Se não há nenhum passado satisfatório, sempre é possível inventá-lo. O passado fornece um pano de fundo mais glorioso a um presente que não tem muito o que comemorar. p. 17.

História como fonte para criação de mito
Mito e invenção são essenciais à política de identidade pelo qual grupos de pessoas ao se definirem hoje por etnia, religião ou fronteiras nacionais passadas ou presentes, tentam encontrar alguma certeza em um mundo incerto e instável, dizendo: "Somos diferentes e melhores do que os outros". p. 19.

Cap. 2. O sentido do passado

Sociedades tradicionais
A crença de que a sociedade tradicional seja estática e imóvel é um mito da ciência social vulgar. Até um certo ponto de mudança ela pode permanecer "tradicional": o molde do passado continua a modelar o presente, ou assim se imagina. p. 25.

O domínio do passado não implica uma imagem de imobilidade social. É compatível com visões cíclicas de mudanças. É incompatível com a idéia de progresso contínuo. p. 25.

Utopia
A utopia é por natureza, uma situação estável ou auto-reprodutora, e seu a-historicismo implícito só pode ser evitado por aqueles que se recusam a descrevê-la. p. 31.

Cap. 3. O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea ?

O futuro
Pensar sobre o que vem acontecendo: e se a maioria da população não for mais necessária para a produção? Do que se mantém? Previdência. O centro da questão é a economia de mercado. p. 45.

História como autojustificação
A história como inspiração e ideologia tem uma tendência embutida a se tornar mito de autojustificação. p. 48.

Cap. 4. A história e a previsão do futuro

Previsão sobre o futuro
Toda a previsão sobre o mundo real repousa, em grande parte, em algum tipo de inferência sobre o futuro a partir daquilo que aconteceu no passado. p. 49.

Perguntas possíveis
Pergunta-se o que acontecerá, mas não quando acontecerá. p. 62.

Cap. 5. A história progrediu?

Progressos na história
A história se afastou da descrição e da narrativa e se voltou para a análise e a explicação; da ênfase no singular e individual, para o estabelecimento de regularidades e generalização. De certo modo, a abordagem tradicional foi virada de cabeça para baixo. Tudo isso constitui progresso? Sim, constitui, de um tipo modesto. p. 75.

• Aproximação com as outras ciências também tem havido. p. 76.

Defesa do marxismo
Acredito ser o marxismo uma abordagem muito melhor da história porque está mais visivelmente atento do que as outras abordagens àquilo que os seres humanos podem fazer enquanto sujeitos e produtores da história, bem como àquilo que, enquanto objetos, não podem. E, por falar nisso, é a melhor abordagem porque, como virtual inventor da sociologia do conhecimento, Marx elaborou também uma teoria sobre como as idéias dos próprios historiadores tendem a ser afetadas pelo seu ser social. p. 77.

Cap. 6. Da história social à história da sociedade

História das idéias
A velha moralidade de história das idéias, que isolava as idéias escritas de seu contexto humano e acompanhava a sua adoção de um escritor para outro, também é possível desde que se queira fazer esse tipo de coisa. P. 87.

Cap. 7. Historiadores e economistas: 1

Acumulação capitalista atual
Na visão de uma fase transnacional do capitalismo, a grande empresa, e não o Estado-nação, é a instituição por meio da qual se manifesta a dinâmica da acumulação capitalista. p. 117

Concentração econômica
O mero reconhecimento por Marx de uma tendência secular à livre competição para gerar concentração econômica foi de enorme fertilidade. p. 120.

Cap. 8. Historiadores e economistas: 2

Generalizações
As generalidades, apesar de sofisticadas, são insuficientes para compreender qualquer estágio histórico real da produção ou a natureza de sua transformação. p. 124.

Modos de produção combinados
Toda transição de uma formação socioeconômica para outra – digamos da sociedade feudal para a capitalista – deve em algum estágio consistir de uma mistura dessa ordem. p. 134.

Cap. 9. Engajamento

Extremos de um cientista
Em um extremo, há a proposição pouco controversa de que o cientista, que é fruto de sua época, reflete os preconceitos ideológicos e outros de seu ambiente e experiências e interesses sociais e específicos. No outro, há a concepção de que não devemos meramente nos dispor a subordinar nossa ciência às exigências de alguma organização ou autoridade, mas até promover ativamente essa subordinação. p.139.

Intelectuais engajados
O mais decisivo é que os intelectuais engajados podem ser os únicos dispostos a investigar problemas ou assuntos que (por razões ideológicas, ou outras) o resto da comunidade intelectual não consegue considerar. p. 148.

Historiadores enfiados nos seus gabinetes: em favor do engajamento
É nessa situação que o engajamento político pode servir para contrabalançar a tendência crescente de olhar para dentro, em casos extremos, o escolasticismo, a tendência a desenvolver engenhosidade intelectual por ela mesma, o auto-isolamento da academia. p. 154.

Cap. 10. O que os historiadores devem a Karl Marx?

Erros e acertos de Marx
É correto que o modelo deva ser debatido e, em particular, que os critérios usuais de verificação histórica sejam aplicados ao mesmo. É inevitável que certas partes, baseadas em evidência insuficiente ou enganosa, devam ser abandonadas, como, por exemplo, no campo do estudo das sociedades orientais, onde Marx combina uma visão profunda com posições equivocadas sobre, digamos, a estabilidade interna de tais sociedades. Apesar disso, o argumento central deste ensaio é o de que o principal valor de Marx para os historiadores hoje reside em suas proposições sobre a história enquanto distintas de suas proposições sobre a sociedade em geral. p. 162.

Significado de “base”
Quase não é necessário dizer que a “base” não consiste da tecnologia ou economia, mas da “totalidade dessas relações de produção”, isto é, a organização social em seu sentido mais amplo quando aplicada a um dado nível das forças materiais de produção.

Contribuição de Marx
A ênfase de Marx na história como dimensão necessária talvez seja mais essencial do que nunca. p. 163.

História como progresso
O conceito de progresso, característico também do pensamento do século XIX, inclusive no de Marx. pp. 163-164.

Cap. 11. Marx e a história

Em história não existe “se”
O que aconteceu era inevitável porque não aconteceu outra coisa; portanto, o que mais poderia ter acontecido é uma questão acadêmica. p. 175.

A direção inelutável ao socialismo
Se é possível demonstrar que em outras sociedades não houve nenhuma tendência ao crescimento das forças materiais, ou que seu crescimento foi controlado, desviado ou de outro modo impedido, mediante a força da organização social e da superestrutura, de provocar a revolução no sentido contido no Prefácio de 1859, então por que o mesmo não deveria ocorrer na sociedade burguesa? p. 178.

Conceitos de sociedade e modo de produção em Marx
“Sociedade” é um sistema de relações humanas, ou, para ser mais exato, de relações entre grupos humanos. O conceito de “modo de produção” serve para identificar as forças sociais que orientam o alinhamento desses grupos – o que pode ser feito de múltiplas formas, dentro de um certo limite, em diferentes sociedades. P. 179.

• A lista de MPs de Marx não visa constituir uma sucessão cronológica unilinear. p. 179.

Cap. 12. Todo povo tem história

Estudo do antropólogo Eric Wolf
Sobre o ceticismo historiográfico...as ciências sociais e a própria história precisam de 'uma história que poderia explicar os modos pelos quais o sistema social do mundo moderno passou a existir, e que se esforçaria em dar sentido analítico a todas as sociedades, inclusive a nossa. p. 185.

A tradição antropológica contra a qual Wolf se insurge é aquela que trata as sociedades humanas (...) como sistemas independentes, auto-reprodutores e teoricamente auto-regulados. Porém, afirma ele, nenhuma tribo ou comunidade é ou jamais foi uma ilha, e o mundo, uma totalidade de processos interligados ou sistema, não é e nunca foi uma soma de grupos humanos e culturas independentes. O que se manifesta como imutável e auto-reprodutor não é somente o resultado do enfrentamento do processo constante e complexo de tensões internas ou externas, mas muitas vezes produto de transformação histórica. p. 186.

O importante é que a história consiste da interação de entidades sociais diversamente estruturadas (e geograficamente distribuídas), que mutuamente se remodelam. (...) macrocosmo e microcosmo na história são uma coisa só. p.187.

Cap. 13. A história britânica e os “Annales”: um comentário

Influência dos Annales na Inglaterra, a "nouvelle vague" francesa na história
O tríplice significado de Fernand Braudel: como autor de um grande livro; como diretor da revista dos Annales; e como a pessoa que transformou, no prazo de uma geração, a VIe Section da École Pratique, que é hoje a Escola de Altos Estudos nas Ciências Sociais, no principal centro dinâmico das ciências sociais francesas. p.193.

O problema das mentalidades
Não é apenas o de descobrir que as pessoas são diferentes.
É encontrar uma conexão lógica entre várias formas de comportamento, pensamento e sentimento, para vê-las como mutuamente coerentes. p.199.

Devemos encarar a mentalidade como um problema não de empatia histórica ou de arqueologia, ou, se preferirem, de psicologia social, mas da descoberta da coesão lógica interna de sistemas de pensamento e comportamento que se adequam ao modo pelo qual as pessoas vivem em sociedade em sua classe particular e em sua situação particular da luta de classes, contra aqueles de cima, ou, se preferirem, de baixo. p.200

Cap. 14. A Volta da narrativa

Ampliação do campo da história como disciplina
Quanto mais ampla a classe de atividades humanas aceita como interesse legítimo do historiador, quanto mais claramente entendida a necessidade de estabelecer conexões sistemáticas entre elas, maior a dificuldade de alcançar uma síntese. p. 204.

Falso debate do micro e do macro
Não há nada de novo em preferir olhar o mundo por meio de um microscópio em lugar de um telescópio. Na medida em que aceitemos que estamos estudando o mesmo cosmo, a escolha entre micro e macrocosmo é uma questão de selecionar a técnica apropriada. p. 206.

Cap. 15. Pós-modernismo na floresta

Sobre o livro de Richard Price sobre a ideia de "marronage"
De que forma os ajuntamentos casuais de fugitivos de origens extremamente distintas, que nada possuem em comum além da experiência de serem transportados em navios negreiros e do trabalho escravo nas fazendas, passam a constituir comunidades estruturadas? Falando em termos mais gerais, como as sociedades são fundadas a partir do zero? p.209

Trata de comunidades quilombolas no Brasil, Suriname, dentre outros espaços.

Cap. 16. A história de baixo para cima

História oral e memória
A questão é que a memória é menos uma gravação que um mecanismo seletivo, e a seleção, dentro de certos limites, é constantemente mutável. p. 221.

Uma boa parte da história dos movimentos populares é como vestígio do antigo arado. Poderia parecer extinto para sempre com os homens que aravam o campo muitos séculos atrás. Mas todo aerofotogrametrista sabe que, com certa luz e determinado ângulo de visão, ainda se pode ver a sombra de montes e sulcos há muito esquecidos. p. 224.

Cap. 17. A curiosa história da Europa

História dos continentes
Se olharmos mais de perto para a categoria "asiático", ela nos diz mais sobre nós que sobre os mapas. Ela lança alguma luz, por exemplo, sobre as atitudes norte-americanas em relação aos setores da humanidade originários das regiões outrora conhecidas como "Leste" ou o "Oriente". pp.232-233.

[...] o prolongamento ocidental da Ásia conhecido como Europa. Em termos geográficos (...) a Europa não tem fronteiras orientais, e o continente, portanto, existe exclusivamente como um constructo intelectual. p.233.

O conceito original de Europa se apoiava em um duplo confronto: a defesa militar dos gregos contra o avanço de um império oriental nas guerras persas, e o encontro entre a "civilização" grega e os "bárbaros"citas nas estepes do Sul da Rússia. p.234.

Procurar uma "Europa" programática única, portanto, resulta em debates intermináveis sobre os problemas até agora não resolvidos, e talvez insolúveis, de como ampliar a União Européia, ou seja, como converter um continente, que ao longo de sua história tem sido econômica, política e culturalmente heterogêneo, em uma única entidade mais ou menos homogênea. Nunca houve uma Europa única. p.236.

A tradição que não considera a Europa como um continente mas como um clube, cuja filiação está aberta apenas a candidatos garantidos como convenientes pelo conselho do clube, é quase tão antiga quanto o nome 'Europa'. Até onde vai a 'Europa' depende naturalmente da posição adotada. p. 237.

[...] a partir do final do século XV, a história do mundo tornou-se indiscutivelmente eurocêntrica, e assim permaneceu até o século XX. (...) Mesmo o conceito do 'mundo' como um sistema de comunicações humanas abrangendo todo o planeta não poderia existir antes da conquista européia do hemisfério ocidental e do surgimento de uma economia capitalista mundial. É isso que fixa a situação da Europa na história mundial, o que define os problemas da história européia e, na verdade, o que torna necessária uma história específica da Europa. p.239.

Mas é isso também que torna a história da Europa tão peculiar. Seu objeto não é mais um espaço geográfico ou um coletivo humano, mas um processo. p.239.

Cap. 18. O presente como história

Influência do presente
E quando não escrevemos sobre a Antiguidade clássica ou o século XIX, mas sobre o nosso próprio tempo, é inevitável que a experiência pessoal desses tempos modelem a maneira como os vemos, e até como avaliamos a evidência à qual todos nós, não obstante nossas opiniões, devemos recorrer e apresentar. P. 245.

Cap. 19. Podemos escrever a História da Revolução Russa

Podemos algum dia escrever a história definitiva de alguma coisa?
[...] na história do mundo moderno estamos lidando com uma acumulação quase infinita de registros públicos e privados. Não há jeito nem mesmo de imaginar o que os futuros historiadores procurarão e descobrirão neles que nós não havíamos pensado. p. 256.

No entanto, a história como atividade séria é possível porque os historiadores podem concordar sobre o que estão falando, sobre quais questões estão discutindo e até sobre boa parte das respostas para reduzir suas diferenças o bastante para o debate significativo. pp. 256-257.

Podemos fazer um juízo da revolução que deu início à URSS, mas não ainda do seu fim, e isso certamente afetará o juízo histórico. A catástrofe na qual mergulhou a gente comum da antiga URSS ao final do antigo sistema ainda não acabou. p. 257.

Por outro lado, os debates mais acalorados sobre a história russa do século XX não giram em torno do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido. p. 258.

Grandes revoluções de massa que eclodem de baixo para cima - e a Rússia em 1917 talvez tenha sido o exemplo mais impressionante de uma revolução desse tipo na história - são, em certo sentido, 'fenômenos naturais'. p. 264.

A Revolução Russa tem realmente duas histórias entrelaçadas: seu impacto sobre a Rússia e seu impacto sobre o mundo. Não podemos confundir os dois. p.266.

Tal como a Revolução Francesa, a Revolução Russa continuará a dividir opiniões. p. 267.

Cap. 20. Barbárie: Manual do usuário

Banalidade da barbárie
O que torna as coisas piores, o que sem dúvida as tornará piores no futuro, é o constante desmantelamento das defesas que a civilização do Iluminismo havia erigido contra a barbárie, e que tentei esboçar nesta palestra. O pior é que passamos a nos habituar ao desumano. Aprendemos a tolerar o intolerável. p. 279

Cap. 21. Não basta a história da identidade

História nacional construída
As nações são entidades historicamente novas fingindo terem existido por muito tempo. É inevitável que a versão nacionalista de sua história consista de anacronismo, omissão, descontextualização e, em casos extremos, mentiras. Em um grau menor, isso é verdade para todas as formas de história de identidade, antigas ou recentes. p. 285.

Destruidor de mitos nas escolas
A terceira limitação na função dos historiadores como eliminador de mitos é ainda mais óbvia. No curto prazo, estão impotentes contra os que optam por acreditar no mito histórico, principalmente se sustentam poder político, o que, em muitos países, e especificamente nos numerosos Estados novos, envolve controle sobre o que ainda é o canal mais importante para comunicar informações históricas, as escolas. E convém nunca esquecer que a história – principalmente história nacional – ocupa um lugar importante em todos os sistemas de educação pública. p. 290

Responsabilidades do historiador
Essas limitações não diminuem a responsabilidade política do historiador, que repousa, acima de tudo, no fato, já notado acima, de que os historiadores são produtores básicos da matéria prima que é convertida em propaganda e mitologia. p. 290.

Fonte: http://estudosresumidos.blogspot.com.br/2009/10/eric-hobsbawm-sobre-historia.html; com inclusão de capítulos faltantes no blog fonte.

ERIC HOBSBAWM - Biografia




Eric John Earnest Hobsbawm (nascido em Alexandria9 de Junho de 1917) é umhistoriador  reconhecido internacionalmente.Seu trabalho é um estudo da construção das tradições no contexto do Estado-nação. Ele argumenta que muitas vezes as tradições são inventadas por elites nacionais para justificar a existência e importância de suas respectivas nações.
Em 1933, Hobsbawm mudou-se paraLondres ,por ter ganhado uma bolsa para estudar na Universidade de Cambridge, Hobsbawn formou-se em História. Uma de suas preocupações é aprimorar as análises históricas para criar mecanismos mais eficientes de predições econômicas e sociais. Ele mesmo faz algumas em seus livros - como a dificuldade de Israel se manter no Oriente Médio se mantiver apenas a força militar como apoio. Tornou-se militante político de esquerda e ingressou no Partido Comunista da Grã-Bretanha.Durante a Segunda Guerra Mundial(1939/1945), participou de mais um importante período do século XX, ao integrar o Exército Britânico contra os nazistas. Foi responsável por trabalhos de inteligência, pois dominava quatro idiomas. Com o fim da guerra, Hobsbawn retornou à Universidade de Cambridge para o curso de doutorado. Também nessa época juntou-se a alguns colegas e formou o Grupo de Historiadores do Partido Comunista.
Foi membro do grupo de historiadores marxistas britânicos, como Christopher HillRodney Hilton e Edward Palmer Thompson que, nos anos 60, diante da desilusão com o stalinismo, buscaram entender a história da organização das classes populares em termos de suas lutas e ideologias, através da chamada "História Social".
Para analisar a história do trabalhismo e os diversos aspectos que a envolvem, como as revoluções burguesas, o processo de industrialização, as diferentes manifestações de resistência, luta e revolta da classe trabalhadora, Hobsbawn dedicou-se à interpretação do século XIX.
Sobre esse período,publicou estudos importantes, como "Era das Revoluções" ,"A Era do Capital"  e "A Era dos Impérios" . Hobsbawn é responsável por análises aprofundadas sobre aquilo que chama de “o breve século XX”.
Um desses livros, em especial, rendeu-lhe reconhecimento e prestígio: "A Era dos Extremos", lançado em 1994, na Inglaterra, tornou-se uma das obras mais lidas e indicadas sobre a história recente da humanidade.Também importante no conjunto de sua obra é seu livro mais recente, "Tempos Interessantes", publicado em 2002.Considerado um dos historiadores atuais mais importantes, Hobsbawm, além de  militante de esquerda, continua utilizando o método marxista para a análise da História, sempre a partir do princípio da luta de classes. É membro da Academia Britânica e da Academia Americana de Artes e Ciências. Foi professor de História no Birkbeck College (Universidade de Londres) e ainda é professor da New School for Social Research de Nova Iorque.

LIVROS PUBLICADOS

  • A Era das Revoluções
  • Era do Capital
  • A Era dos Impérios
  • Era dos Extremos
  • Sobre História
  • Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1979 (Segunda Edição)
  • História Social do Jazz
  • Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz
  • Nações e Nacionalismo desde 1780
  • Tempos Interessantes (autobiografia)
  • Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História do Operariado
  • Mundos do Trabalho: Novos Estudos Sobre a História Operária
  • Revolucionários: Ensaios Contemporâneos
  • Estratégias para uma Esquerda Racional
  • Ecos da Marselhesa : dois séculos revêem a Revolução Francesa / Eric J. Hobsbawm ; tradução Maria Celia Paoli. São Paulo:Companhia das Letras, 1996.
  • As Origens da Revolução Industrial/ tradução de Percy Galimberti São Paulo: Global Editora, 1979.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

2a) Atividade Avaliativa de Abril (Cinema na Metodologia)

Jogos VorazesTodos os anos nas ruínas de onde outrora fora a América do Norte, a nação de Panem força cada um de seus doze distritos para enviar um menino e uma menina para competir nos Jogos Vorazes. Parte entretenimento, parte tática de intimidação do governo, os Jogos Vorazes são um evento televisionado em que os Tributos devem lutar um contra o outro até que um sobrevivente permanece.
Elenco: Liam Hemsworth, Jennifer Lawrence, Elizabeth Banks, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Willow Shields, Stanley Tucci, Alexander Ludwig, Isabelle Fuhrman
Direção: Gary Ross
Gênero: Aventura
Duração: 144 min.
Distribuidora: Paris Filmes
Classificação: 14 Anos


Um conto chinês Roberto é um veterano da Guerra das Malvinas que vive recluso em sua casa há vinte anos e coleciona manias. Jun é um chinês que apareceu na vida de Roberto depois de ser roubado e arremessado de um taxi em Buenos Aires. Roberto não fala chinês e Jun não fala espanhol. Apesar das diferenças e dificuldades Roberto e Jun descobrirão o real motivo deste encontro inusitado: uma vaca que caiu do céu.
Elenco: Ricardo Darín, Muriel Santa Ana, Huang Sheng Huang
Direção: Sebastian Borensztein
Gênero: Comédia
Duração: 93 min.
Distribuidora: Paris Filmes
Classificação: 12 Anos




Lola Lola Sepa (Anita Linda), a avó, é uma senhora que vive com sua filha e netos menores, e sendo muito pobre, precisa arcar com as despesas do funeral do neto querido. Além disso, precisa arrumar dinheiro para manter um processoaberto contra o assassino capturado pela políciapouco tempo depois. Mas os problemas vão muito além das dificuldade financeiras. Por ser muito idosa, Lola Sepa precisa lutar o tempo todo contra as dificuldades da velhice, especialmente para se locomover em uma caótica cidade filipina, onde o transporte é bastante precário e chuvas torrenciais caem o tempo todo. Para piorar, a família de Lola Sepa vive em um apertado barraco, em uma favela localizada em um bairro totalmente alagado, em que só é possível transitar de canoa.Enquanto Lola Sepa luta por justiça e para garantir um enterro digno a seu neto, acompanhamos as dificuldades de uma outra avó, Lola Puring (Rustica Carpio), avó de Mateo (Ketchup Eusébio), o assassino.Lola Pouring é igualmente pobre, e vive com seus netos e um filho deficiente físico; a situação de Mateo na cadeia a deixa arrasada. Vendedores de verduras na feira, a família de Lola Pouring luta para garantir o pão de cada dia, e não tem dinheiro para pagar um advogado, muito menos para tentar um acordo financeiro com a parte ofendida. 
Elenco: Anita Linda, Rustica Carpio
Direção: Brillante Mendoza
Gênero: Drama
Duração: 110 min.
Distribuidora: ** Outras **
Classificação: 10 Anos

*Aplicar algum dos conceitos vistos em Jacques Le Goff no livro "História e Memória" ou em Roger Chartier no livro "A História Cultural: entre práticas e representações" no filme escolhido para comentar. Perceber a metodologia na qual estão envoltos os personagens do filme escolhido para comentar.

domingo, 25 de março de 2012

Paper Roger Chartier. História Cultural - Entre práticas e representações. Lisboa/Rio de Janeiro: Difel/ Bertrand Brasil, 1990.

O autor: biografia e obras


Roger Chartier nasceu em Lyon, na França, em 1945. Desde jovem tem se  dedicado a pesquisas e projetos coletivos na direção de novas abordagens e de  novos objetos para a história, fazendo parte da terceira geração do grupo de pesquisadores conhecido como Escola dos Analles. Sua trajetória intelectual abrange várias linhas de pesquisa: uma primeira linha seria a história das instituições de  ensino e das sociabilidades intelectuais; uma segunda linha de pesquisa, que perpassa o conjunto de sua obra, é constituída pela história do livro e das práticas de  escrita e de leitura; uma terceira linha de pesquisa seria a análise e o debate entre política, cultura e cultura popular; uma outra linha ainda pode ser derivada de  suas reflexões sobre o ofício de historiador, expressas em suas publicações e em  suas atividades como divulgador de uma nova história. Diretor na Escola de Altos  Estudos em Ciências Sociais, em Paris,e professor especializado em história das práticas culturais e história da leitura, Roger Chartier é um dos mais conhecidos  historiadores da atualidade, com obras publicadas em vários países do mundo. Sua  reflexão teórica inovadora abriu novas possibilidades para os estudos em história cultural e estimula a permanente renovação nas maneiras de ler e fazer a história. Chartier foi professor nas universidades Princeton, Montreal, Yale, Cornell, John Hopkins, Chicago, Pensilvânia, Berkeley.Roger Chartier escreveu muitas obras. Referenciamos aqui só as publicadas no Brasil: História da vida privada: da Renascença ao Século das Luzes; Cultura  escrita, literatura e história; Formas do sentido - Cultura escrita: entre distinção e apropriação; Os desafios da escrita; A aventura do livro; À beira da falésia; Do Palco à Página; A ordem dos livros; História da leitura no mundo ocidental; Práticas da leitura; O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente;  e Leituras e leitores na França do Antigo Regime.


Sobre a obra:

Em sua obra “A História Cultural: Entre Práticas e Representações”, composta por oito ensaios publicados entre 1982 e 1986, Chartier evidencia que, nos anos de 1950 e 60, os historiadores buscavam uma forma de saber controlado, apoiado sobre técnicas de investigação, de medidas estatísticas, conceitos teóricos dentre outros. Esses historiadores acreditavam que o saber inerente à história devia se sobrepor à narrativa, por acharem que o mundo da narrativa era o mundo da ficção, do imaginário, da fábula. Contudo a tendência hegemônica da historiografia atual propõe uma nova forma de interrogar a realidade, toma como base temas do domínio da cultura e salienta o papel das representações. A História Cultural, esclarece Chartier, éimportante para identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma realidade social éconstruída, pensada, dada a ler. Portanto, ao voltar-se para a vida social, esse campo pode tomar por objeto as formas e os motivos das suas representações e pensá-las como análise do trabalho de representação das classificações e das exclusões que constituem as configurações sociais e conceituais de um tempo ou de um espaço. No entanto, a História Cultural deve ser entendida como o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido, uma vez que as representações podem ser pensadas como “[...] esquemas intelectuais, que criam as figuras graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível e o espaço ser decifrado” (CHARTIER, 1990,p.17). Como se vê, os processos estabelecidos a partir da História Cultural envolvem a relação que se estabelece entre a história dos textos, a história dos livros e a história da leitura, permitindo a Chartier uma fértil reflexão a respeito da natureza da História como discurso acerca da realidade e ainda de como o historiador exerce o seu ofício para compreender tal realidade. Podemos perceber que a obra de Chartier se destaca por impor o trato de problemas conceituais como representação, prática e apropriação. A partir deles, o autor considera questões como as formas narrativas do discurso histórico e literário, fundamentais à interpretação dos documentos que o historiador toma por objeto. Entendemos que para compreender melhor esses conceitos é fundamental conhecer as idéias de historiadores como, por exemplo, Pierre Bordieu, Michel de Certeau, Michel Foucault e Paul Ricoeur, influenciados pela Escola dos Analles, como também as idéias de alguns autores influenciados pela Escola de Frankfurt, como Gadamer, Geertz, Habermas, Jauss e Norbert Elias. Para Roger Chartier, um autor pode ser lido e entendido quando se leva em consideração o contexto no qual o seu trabalho foi produzido, por isso pensar, portanto, os processos de civilização nos possibilitam ir do discurso ao fato, questionando a idéia de fonte como mero instrumento de mediação e testemunho de uma realidade e considerando as representações como realidade de múltiplos sentidos, mesmo porque as representações do mundo social, assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Chartier acredita que há algo específico no discurso histórico, pois este é construído a partir de técnicas específicas. Pode ser uma história de eventos políticos ou a descrição de uma sociedade ou uma prática de história cultural. Para produzi-la, o historiador deve ler os documentos, organizar suas fontes, manejar técnicas de análise, utilizar critérios de prova. Portanto, se é preciso adotar essas técnicas em particular, é porque há uma intenção diferente no fazer história, que é restabelecer a verdade entre o relato e o que é o objeto deste relato. O historiador hoje precisa achar uma forma de atender a essa exigência de cientificidade que supõe o aprendizado da técnica, a busca de provas particulares, sabendo que, seja qual for a sua forma de escrita, esta pertencerá sempre à categoria dos relatos, da narrativa. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem as utiliza (CHARTIER, 1990, p.16). Um texto pode aplicar-se à situação do leitor e, como configuração narrativa, pode corresponder a uma refiguração da própria experiência. Por isso, entre o texto e o sujeito que lê, coloca-se uma teoria da leitura capaz de compreender a apropriação dos discursos, a maneira como estes afetam o leitor e o conduzem a uma nova forma de compreensão de si próprio e do mundo. O autor esclarece que os agenciamentos discursivos e as categorias que os fundam – como os sistemas de classificação, os critérios de recorte, os modos de representações – não se reduzem absolutamente às idéias que enunciam ou aos temas que contêm, mas possuem sua lógica própria – e uma lógica que pode muito bem ser contraditória, em seus efeitos, como letra da mensagem (CHARTIER, 1990, p.187).As contribuições que Chartier incorporou aos seus estudos são grandes e diversas. Podemos citar as categorias como habitus, tomada da obra de Pierre Bordieu; configuração e processo, apanhadas em Norbert Elias; representação, apreendida com Louis Marin; idéias como controle da difusão e circulação do discurso, buscadas em Michel Foucault; produção do novo a partir das contribuições existentes, tal como pensada por Paul Ricoeur; e a apropriação e transformação cultural, do mesmo modo proposto por Michel de Certeau. As filiações teóricas de Roger Chartier serviram para que os pesquisadores compreendessem a necessidade de mergulhar nas teorias e metodologias da História, na prática dos arquivos, realizando a operação historiográfica proposta por Michel de Certeau. Partindo da observação dos conceitos usados por Roger Chartier, é possível perceber que ele se preocupa com a forma através da qual os indivíduos se apropriam de determinados conceitos. Assim valoriza as mentalidades coletivas. Conceitos como os de utensilagem mental, visão de mundo e configuração têm importância fundamental para o estabelecimento de um diálogo com as fontes. É necessário aprofundar os estudos em torno dos conceitos fundamentais difundidos por esse importante interlocutor dos fenômenos da cultura de um modo geral, buscando um maior conhecimento a respeito das condições de produção da sua obra e das suas ferramentas de análise. O trabalho de Roger Chartier cria condições para que se estabeleça uma nova postura nos estudos da História Cultural diante dos métodos, das fontes e dos temas estudados, buscando, da mesma maneira, nos diversos ramos especializados da História um diálogo mais fértil com a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia e a teoria literária.

FONTE: AMARAL, Ieda Ramona do; FARIA, Luciane Miranda. Resenha sobre o livro de Roger chartier: a história cultural entre práticas e representações. In: Revista de Educação Pública, Cuiabá/MT, v. 16, n. 30, p. 183-186, jan.-abr. 2007.

Texto 2 da Unidade I: Roger Chartier


Prezados alunos, 

depois de longos dias na companhia de Jacques Le Goff, sairemos um pouco da discussão sobre História e Memória para adentrar o mundo das Representações Sociais de Roger Chartier!

Os capítulos referentes ao livro já se encontram na copiadora, providenciado gentilmente pela monitora da turma Danielle Oliveira. Alguns já possuem o livro digitalizado. Conferir na turma e socializar a obra.

CHARTIER, Roger. História Cultural - Entre práticas e representações. Lisboa/Rio de Janeiro: Difel/ Bertrand Brasil, 1990.


Ou a obra virtual em: http://pt.scribd.com/doc/86567602/A-Historia-Cultural-Entre-praticas-e-representacoes-Roger-Chartier

sexta-feira, 2 de março de 2012

Paper Jacques Le Goff. História e Memória. Campinas: Ed. UNICAMP, 1994.


O autor: Jacques Le Goff


      Jacques Le Goff nasceu no Sul da França em 1924 e ainda garoto, após ler a mais famosa obra de Walter Scott – Ivanhoé – jamais abandonou o interesse pelo medievo. Aos oitenta anos de idade, portanto em 2004, foi reconhecido universalmente, juntamente com Georges Duby e Le Roy Ladurie, como um dos maiores Medievalistas da França pós Segunda Grande Guerra.
       A carreira de Le Goff foi uma ascensão desde os bancos escolares até os níveis superiores. Foi aluno da Escola Normal Superior de Paris e no famoso Liceu Louis-le Grand, que em 1994 receberia como aluno o mais famoso filósofo da França pós Segunda Guerra Mundial, Jean-Paul Sarte.
    Influenciado pelo medievalista March Bloch, que fora fuzilado por militares na resistência francesa à ocupação nazista em 1944, Le Goff mergulha nos manuscritos antigos, tratados escolásticos, pergaminhos e rolos veneráveis que guardavam os segredos e as controvérsias medievais. O resultado foi a descoberta de uma época distinta do que o Renascimento descrevia, ou seja, a dark age (era das trevas) dos ingleses.
     Le Goff é um autor conhecido no Brasil tendo vários livros editados como: A história nova, Os intelectuais na idade média, História da memória, O Deus da idade média: conversas com Jean-Luc Pouthier, A bolsa e a vida: usura na Idade Média, As raízes medievais da Europa, A idade média explicada a meu filho, entre outros. 

(Fonte: Bernardo Rafael de Carvalho Pereira. História e Memória, In: http://www.filosofante.com.br/?p=822, Acesso: 02/03/2012)


A obra: História e Memória - visão geral

A Memória e a História por vezes parecem ser simbióticas, envolvendo-se em torno de um objeto, de uma pessoa, de um fato, de uma temporalidade, todavia o que as distingue fundamentalmente?

A obra História e Memória de Jacques Le Goff (responsável pela Escola dos Annales em sua terceira geração, por volta de 1970) apresenta-se dividida em 10 capítulos, tendo sido lançada em 1988, e ao tratar da História são evocadas algumas relações entre a) a História Objetiva (enquanto Ciência) e a história vivida  (processo; lembrança); b) a História em sua temporalidade (natural, cronológica e cíclica); c) a dimensão dialética da História (em seus conflitos, oposições e contradições) tendo em vista o passado e o presente; d) a História e o futuro; e) a História e seu intercâmbio com as outras Ciências.

Dois capítulos do livro merecem especial leitura pelas demais áreas da Ciências Sociais, pois se tornaram referência teórica e metodológica: * Memória e * Documento/Monumento.

Entre o relato de um fato por uma testemunha ocular e a explicação de um evento, a História percorreu um longo caminho entre o mito e a cientificidade legitimada. Das "lendas originárias" da humanidade à religião ou às ideologias como categorias de interpretação, a subjetividade beira às análises dos documentos, por isso o autor chama a atenção para a necessidade da crítica do documento que não é um material bruto, objetivo e inocente, mas que exprime o poder da sociedade (ou dos grupos sociais que detém o poder) do passado sobre a memória e o futuro tornando assim o documento. Desse modo, todo o documento é fruto de uma escolha, quer seja a de decidir o que deve ser arquivado e o que deve ser descartado (nenhum arquivo guarda todos os documentos da humanidade, sem lacunas!), quer seja quais documentos devem ser utilizados na interpretação de determinado fato histórico.

O fato histórico é uma construção e a História uma criação do historiador, que pode ser afirmada ou refutada por gerações de pesquisadores futuros com base na "descoberta" de novos documentos outrora não relacionados ou com a utilização de novo métodos de análise documental. E dentro desse esforço por compreender pessoas, relações sociais e acontecimentos, o tempo é por excelência uma peça fundamental para os estudos históricos. Seja o tempo como demarcador de uma cronologia, cristalizado em um calendário que transita entre as origens míticas e religiosas da humanidade ao progresso tecnológico.

Toma-se então o calendário como uma tentativa humana de controle do tempo da natureza, empreendendo uma periodização que o torna um tempo histórico fragmentado. Todavia, a ideia de tempo linear, contínuo e irreversível é criticada na obra de Le Goff, reafirmando a concepção de tempo indicada pela Escola dos Annales com ritmos diferenciados. Nesse contexto eventos do século XX como o marxismo, o facismo, o nazismo, as duas grandes guerras mundiais e a bomba atômica, a renovação das teorias e metodologias da História via Escola dos Annales e a trajetória do terceiro mundo com suas peculiaridades históricas são abordados.


A obra: História e Memória em capítulos.

Capítulo I - História.

Ao dialogar com vários autores como Paul Veyne, Marc Bloch, Benedetto Croce, Lucien Febvre, dentre outros, Le Goff busca refletir sobre a História em sua temporalidade sem reduzi-la às concepções europeias/ocidentais. Objetiva-se resgatar a raiz da palavra História em seu sentido de "ver" e "procurar" (do valor do testemunho), compreendendo os processos de montagem teórica e técnica a partir dos documentos, caminhando por lacunas e inexatidões, como arte de reconstrução e não de ressuscitação. Para Marc Bloch, longe de se preocupar somente com o passado, a História é a ciência dos homens no tempo (no seu tempo, tempo mutável, longo, que se desdobra no presente e no futuro). Nesse trajeto são ressaltadas as rupturas e descontinuidades temporais, bem como as necessidades contemporâneas que atuam sobre as análises históricas. Há críticas à História de historiadores oficiais em seu distanciamento da História coletiva, em sua parcialidade privilegiando os indivíduos ("grandes homens") e postura de "donos da verdade" na narração de "um conto de fatos verdadeiros". Enfatiza-se a singularidade do fato histórico que não se repete como experiência de laboratório, mas que mesmo assim, alguns historiadores tentam generalizar tais singularidades.

Para Le Goff a memória não é História, mas um de seus objetos e um campo para elaboração histórica. Ressalta que toda História e relativamente contemporânea à medida que o passado é apreendido pelo presente. Vê a cultura como uma mentalidade histórica, ligada à diferentes concepções de tempo existentes nas sociedades. Destaca a importância da oralidade nesse processo, pois todas as sociedades possuem História (quer tenham escrita ou não), apontando ainda o papel da problematização dos mitos como um dado importante para a reflexão histórica e para o olhar etnológico (de onde se vêem as outras culturas a partir da cultura em que se vive).

O filósofo Michel Foucault é citado como aquele que reforça a necessidade de se questionar os documentos (e não tomá-los como reprodução da verdade de um fato histórico), atentar à descontinuidade do tempo (às mudanças, transformações) e principalmente no interesse pelo desenvolvimento da prática e da metodologia histórica. Assim a História se configura como Ciência de fato e passa a ser ensinada com um sentido mais objetivo.

Para a História o documento fala mesmo nos seus silêncios e até os falsos documentos têm algo a dizer. A História não é divina, é humana e por isso passível de seus equívocos e tentações. Olhos bem abertos sem ingenuidades, teoria aprofundada, metodologia compatível e perguntas-problemas são elementos fundamentais ao ofício do historiador.

Capítulo 2 - Antigo/Moderno

Pela definição ocidental, os conceitos de antigo e moderno referem-se às oposições tradicional (passado)/ inovador (recente). Todavia a modernidade foi apresentada como um conceito negativo da cultura industrial, isso posto que nas sociedades tradicionais a antiguidade possui um valor seguro, onde a memória coletiva está depositada nos mais idosos. Com a consciência da modernidade há um sentimento de ruptura com o passado e o moderno surge para afastar o que considera um atraso. Le Goff chama atenção para o lançamento do termo "modernidade" em 1860 por Baudelaire; já Henri Lefebvre vai distinguir modernidade de modernismo ("A modernidade como resultado ideológico do modernismo"). Sendo que o moderno não estaria se opondo ao antigo e sim ao primitivo, voltando-se para o passado de onde retira sua força.

Capítulo 3 - Passado/Presente.

O passado como "função social" congrega também brechas para a inovação, para a mudança, no processo de "renascenças", de retorno e progresso. Segundo Marx haveria um culto reacionário do passado que deveria ter um fim. Esse "culto ao passado" teria alimentado as ideologias fascistas e nazistas. Segundo Bourdieu, quando uma classe entra em declínio volta-se para o passado em busca de referências melhores. E por mais paradoxal que possa ser, a aceleração da História e das sociedades industrializadas levou as massas à nostalgia, ao religamento com suas raízes, voltando-se para a História, Arqueologia, Folclore, Fotografia (como criadora de memórias e recordações) e o prestígio da noção de patrimônio.

Capítulo 4 - Progresso/Reação.

ideia de progresso provém da antiguidade greco-romana. A mudança era vista como corrupção e desordem. O futuro dos homens estava ofuscado pela lembrança das divindades e dos heróis mitológicos. Com o nascimento da imprensa no século XV e a Revolução Francesa (1789) a ideia de progresso em relação Idade Média toma impulso. Mas a concepção de progresso na História continua sendo cíclica (desenvolvimento, apogeu e decadência). Entre 1840 e 1890 há um grande boom econômico e industrial do progresso no Ocidente. Assim, a ideia de progresso está atada à uma ideologia burguesa que a crise de 1929 faz ruir. Depois da segunda guerra mundial o progresso é despertado no terceiro mundo.

Capítulo 5 - Idades Míticas.

Para dominar o tempo e a História e satisfazer as próprias aspirações de felicidade e justiça ou os temores face ao desenrolar ilusório ou inquietante dos acontecimentos, as sociedades humanas imaginaram a existência, no passado e no futuro, de épocas excepcionalmente felizes ou catastróficas e, por vezes, inseriram essas épocas originais ou derradeiras numa série de idades, segundo uma certa ordem. Essas idades míticas normalmente estão vinculadas à religião. E a idade mítica final repete a final, como um evento cíclico de eterno retorno. Do caos ao renascimento, à ordem, para novamente entrar em declínio. O que está em causa, em primeiro lugar, nas idades Míticas, é a ideia de progresso. Tudo era, realmente, melhor no início? As teorias das Idades Míticas introduziram, no tempo e na história, a idéia de período e ainda, a idéia de uma coerência na sucessão dos períodos, a noção da periodização.

Capítulo 6 - Escatologia.

Escatologia é a doutrina das crenças que abordam o destino final do homem e do universo, considerado um tema recente datado do século XIX. Citando Bultmann, Le Goff  afirma que escatologia é “quando o homem é colocado perante uma decisão”. O ano novo ao mesmo tempo inspira morte e ressurreição. O oráculo é uma divindade que revela seus segredos. A laicização é considerada uma das primeiras metamorfoses da escatologia.

Capítulo 7 - Decadência.

O termo não se opõe a progresso, mas é mais comum ser ligado a ideia de envelhecimento. A maioria das teorias acerca da decadência provém de pensadores, de grupos ou de sociedades que corrigem o seu pessimismo com uma crença ainda mais forte da vinda obrigatória de uma renovação. A decadência é uma fase necessária para a renovação. Mas a noção de decadência talvez esteja ao serviço de certos tipos de história, hoje profundamente desacreditados: a história política, a história linear ou cíclica, a história catastrófica.

Capítulo 8 - Memória.

A memória é uma representação do passado, sendo histórica e social. A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas. Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva. Em sociedades de memória essencialmente oral há diferenças das essencialmente escritas. O aparecimento da escrita está ligado a uma profunda transformação da memória coletiva. A escrita permite à memória coletiva um duplo progresso, o desenvolvimento de duas formas de memória. A primeira é comemoração, a celebração através de um monumento comemorativo de um acontecimento memorável. A outra forma de memória ligada à escrita é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita. Importa salientar que todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta. Entre as manifestações importantes ou significativas da memória coletiva, encontra-se o aparecimento, no século XIX e no início do século XX, de dois fenômenos. O primeiro, em seguida a Primeira Guerra Mundial, é a construção de monumentos aos mortos, A comemoração funerária encontra aí um novo desenvolvimento. Em numerosos países é erigido um túmulo ao soldado desconhecido, associado a anonimato, proclamando sobre um cadáver sem nome a coesão da nação em torno de memória comum. A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. A memória coletiva é não somente uma conquista, é também um instrumento e um objeto de poder. Nas sociedades desenvolvidas, os novos arquivos não escaparam à vigilância dos governantes, mesmo se podem controlar esta memória tão estreitamente como os novos utensílios de produção desta memória, nomeadamente a do rádio e a da televisão. Le Goff chama a atenção para a memória dos computadores (ela é auxiliar dos seres humanos) e o código genética, ambos dotados de memória, embora não humana. A memória onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

Capítulo 9 - Calendário.

O tempo do calendário é totalmente social, mas submetido aos ritmos do universo. O calendário é um objeto cultural, enquanto organizador do quadro temporal, diretor da vida pública e cotidiana, o calendário é, sobretudo, um objeto social. A conquista do tempo através da medida é claramente percebido como um dos importantes aspectos do controle do universo pelo homem. O calendário é um dos grandes emblemas e instrumentos do poder. A reforma e a revolução francesa são exemplos de mudanças no calendário. Para garantir o poder, o calendário estabelece festas que perpetua a recordação de feitos ligados a um grupo social. Nos diversos sistemas sócio-econômicos e políticos, o controle do calendário torna mais fácil a manipulação de dois instrumentos essenciais do poder: o imposto, no caso do poder estatal; e os tributos, no caso de poder feudal. O calendário muçulmano foi sempre lunar e não o solar. Há o calendário baseado nas estações do ano. Uma função essencial do calendário é a de ritmar a dialética do trabalho e do tempo livre, o entrecruzamento dos dois tempos: o tempo regular, mas linear do trabalho, mas sensível a mutações históricas, e o tempo cíclico da festa, mais tradicional. O calendário, órgão de um tempo que recomeça sempre, conduz paradoxalmente à instituição de uma história cronológica dos acontecimentos. A história dos almanaques e dos calendários é uma história de reis e de grandes personagens, de heróis e, antes de mais nada, de heróis nacionais.

Capítulo 10 - Documento/Monumento.

A memória coletiva e a sua forma científica, a História, aplicam-se a dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos. De fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. Memória: fazer recordar. Monumento é um sinal do passado. O monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar e recordação, por exemplo, os atos escritos. O monumento tem como características, o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas. Originalmente o documento se opunha ao monumento, que era intencional. Devemos criticar a história fundada sob os documentos. Embora a concepção de documento resista a mudanças, seu conteúdo se dilatou muito. O interesse da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente sobre os grandes homens, os acontecimentos. O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa. Para Foucault o problema da história está em questionar os documentos. Desestruturar o documento evidenciando o seu caráter de monumento. O documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias. Não existe um documento-verdade. Todo o documento é mentira... falso, porque um monumento é em primeiro lugar uma roupagem, uma aparência enganadora, uma montagem. É preciso começar por desmontar, demolir esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as condições de produção dos documentos-monumentos. É importante não isolar os documentos do conjunto de monumentos de que fazem parte.